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Geraldo Filho

[ Geraldo Filho ]
Um eterno apaixonado por futebol e literatura. Formado em letras, professor de literatura e um quixotesco peladeiro.

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Mil palavras valem mais do que uma imagem, ainda.

Indo de encontro ao lugar comum e do dito popular que dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, ainda prefiro acreditar no poder que as palavras são capazes de criar. Refiro-me a essa máxima, pois quando era estudante de Letras ouvia meu professor Joaquim Branco falando de sua infância repleta de histórias de tapetes voadores, lâmpadas mágicas, gênios etc. nas ruas de Bagdá, contadas por sua mãe e ele, menino, ficava imaginando como seria a cidade dos sultões, cercada por castelos ornados a ouro e serpentes perigosíssimas.

Há pouco mais de dois anos, li o livro de contos de Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira, outro grande professor do qual tive a oportunidade de ser aluno, Uma ou outra forma de tirania, e o conto de abertura intitulado Os retratos de Cândido Bergara possui uma descrição que é uma fotografia mental: “Cada lugar tem seu modo peculiar de seduzir o visitante. Seja por uma ponte, um mirante, um lago, um braço de mar, os lugares distinguem-se pelo pitoresco. Vista Alegre possui o relógio da igreja, que marca sempre a mesma hora. A impressão que se tem, ao avistar a torre, é de um tempo em suspenso, aguardando o anoitecer para ocultar-se indiferente nas trevas do silêncio”.(OLIVEIRA, 2006, p.15 ) Uma bela tradução do que é Vista Alegre: cheia de memórias verdadeiras e de poesia, mas parada no tempo. A imagem do relógio da igreja marcando sempre a mesma hora é uma metáfora muito forte e mostra como aquele pedaço de terra continua o mesmo.

Um outro livro que também incita, e muito, o imaginário humano é o romance A peste, de Albert Camus. Nesse livro Camus fala de uma cidade argelina, Oran, assolada por uma epidemia que dizima quase toda sua população. Mas essa epidemia é apenas uma alegoria da condição humana, o distanciamento que nós mesmos criamos um do outro. O escritor francês descreve também com maestria a cidade mediterrânea. Eis a passagem: “A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. Com o seu aspecto tranqüilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas? Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas das flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno”.(CAMUS, 2007, p.9)    

A sociedade, hoje, visa cada vez mais a facilidade humana, vendendo produtos e conceitos pré-estabelecidos. Fico imaginando se o meu professor Joaquim, quando criança, após ouvir as histórias contadas por sua mãe ligasse a televisão e assistisse a Bagdá sendo bombardeada por caças americanos; ele não teria associado o que ouviu ao que assistiu ou ao invés de ficar imaginando a cena do relógio parado há muito tempo no topo da igreja acessasse à internet e procurasse por “igreja+Vista Alegre”. Não, definitivamente prefiro as imagens que somos capazes de criar em nossas mentes.

O valor que a palavra tem é muito maior que o da imagem, pelo menos na literatura. O importante é sugerir, não revelar – já dizia o poeta. Essas três passagens ficam constantemente no meu imaginário: as histórias de Bagdá, Vista Alegre ‘perdida’ no tempo e Oran, bonita só no inverno. A literatura continua aí, com seu trabalho quixotesco(?), mas fiel a seus seguidores, com gente boa produzindo com qualidade e criando cenários imaginários na cabeça dos seus leitores que sempre levaram e continuam levando a coisa a sério, graças aos deuses. O crítico literário José Castello definiu muito bem essa situação. “A gente começa a escrever porque tem jeito para escrever e depois continua porque não tem jeito de parar”. Depois disso, só me resta encerrar.

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