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Nylton Batista

[ Nylton Batista ]
Redator de jornal há cerca de vinte anos. Também escreve contos, alguns dos quais publicados em antologias.

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Impontualidade como destaque

Pontualidade não é característica que bem qualifique o brasileiro em qualquer parte do mundo, ficando ele entre os últimos no cumprimento dessa norma ditada pela boa educação. Não cumpre e ainda faz blague sobre o comportamento dos poucos entre patrícios que o cumprem. Nota-se o pouco caso aos ponteiros do relógio até na fixação da hora dos eventos. Enquanto em outros países essa fixação se faz mesmo em hora picada, contando-se minuto a minuto, aqui tudo se marca em hora redonda ou, quando muito fracionada, aos quinze minutos ou um quarto de hora. Talvez essa característica tenha sido o que inspirou Santos Dumont na criação do relógio de pulso, acreditando que tendo o relógio à mão, ou mais próximo dela sem que precisasse retirá-lo do bolso do colete, o brasileiro passasse a ser mais pontual. Longe de ajustar o portador à sua agenda no tempo, o relógio de pulso foi assimilado mais como adorno pessoal e, em certa época, símbolo de status social. Está no gene tupiniquim a ojeriza à hora estabelecida e quem trabalha na área de recursos humanos sabe bem disso.

Lembro-me de caso curioso passado na prefeitura de Ouro Preto, cujo departamento do pessoal, na época, dava tolerância de dez minutos a eventuais retardatários; liberalidade absurda em comparação com procedimento adotado no setor privado. Depois de algum tempo, observava-se que vários servidores já ultrapassavam, em muito, os dez minutos, e a grande maioria chegava dentro da faixa de tolerância. Anunciou-se então que tal abuso não mais seria admitido a partir de determinada data, mantendo-se, no entanto, a tolerância dos dez minutos. No dia indicado, servidora qualificada, porém habituada ao atraso, chegou onze minutos depois da hora regulamentar e não mais encontrou seu cartão de ponto.

Supostamente atingida em seus brios, bradou aos céus e terra contra a “injustiça” que lhe pesava por ter chegado apenas “um minuto” atrasada. Fora-lhe oferecido um dedo e ela queria tomar todo o braço!

Do hábito do atraso como marca brasileira bom proveito tiram indivíduos, que primam pela auto-evidência  em eventos públicos, ou seja, gostam de ser notados, ainda que o acontecimento não os tenha em foco. São os últimos a entrar na igreja, por exemplo, mas fazem questão do desfile entre os presentes ao oficio religioso e vão se postar à frente em local bem visível.

Certa vez, sem querer, mas ao mesmo tempo querendo, ouvi pessoa comentar com outra, que teria sido desconsiderada ao não ser convidada para se sentar à mesa diretora em certa solenidade, por ter chegado atrasado. Notei que o interlocutor lhe perguntou se teve motivo especial para o atraso e ele respondeu que apenas acontecera de chegar com atraso. Presumivelmente, a segunda pessoa não concordava com a reclamação da primeira. É o cúmulo da deseducação tais pessoas que, convidadas por terem algum destaque na coletividade, chegam atrasadas a solenidades lamentavelmente também iniciadas com atraso devido ao péssimo hábito; e ainda querem aparecer como atração extra.

Mestre de cerimônia ou coordenador de tais sessões não tem nenhuma obrigação de abrir espaços para retardatários, a menos que figurem entre autoridades maiores, cujo tempo pode ser tomado por outros compromissos, não se dispensando aos seus assessores, entretanto, a prévia comunicação do atraso. Aqueles, privilegiados com o convite, porém “desatenciosos” com o mesmo, que procurem outra maneira de “aparecer”!Quem se encarrega da organização e direção dessas solenidades sabe o quanto custa de sua atenção para que o evento transcorra sem atropelos, não cabendo a ninguém o direito de lhe alterar tudo com “pavonices”.

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