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Newton Lins

[ Newton Lins ]
Bacharel em administração e Mestre em Administração Estratétiga, ambos pela UFRN, sou também Pós-Graduado em Gestão da Qualidade total e em Marketing.

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Qual o símbolo do seu município?

Vem aí a renovação do Legislativo e do Executivo municipal. São, ao todo, 5.563 municípios no país. Uma enxurrada de dinheiro do contribuinte está prestes a ser gasta de uma forma que, por incrível que pareça, nunca foi questionada. O uso da autopromoção vinculada à coisa pública.

Refiro-me ao costume arraigado de se utilizar uma logomarca vinculada ao titular do cargo, ao invés de uma outra, definitiva e consagrada pelos valores fundamentais da comunidade.

Num período de governo pode ser um cata-vento, em outro, uma arvorezinha, depois, uma rosa e em seguida um coração estilizado... sabe Deus, doravante, o que será!

Pelo menos dois pontos devem ser questionados sobre esta prática que denomino abusiva, mas, lamentavelmente, incólume, livre das críticas ou da repreensão popular ou especializada: o primeiro deles diz respeito aos gastos resultantes da situação. Imagine ou, se possível contabilize, quanto custa refazer toda a comunicação visual da máquina pública. Cada carro oficial, trator, caminhão ou ambulância vai receber um novo adesivo com o “desenhinho” do supremo mandatário municipal. Cada prédio público pode até ter que ser pintado para retirar a cor do antigo chefe de estado, anulando assim, maquiavelicamente, a lembrança do possível opositor. Na verdade, não precisa ser de fato opositor político. Mesmo aqueles que foram eleitos como sucessores dos mandatários anteriores, irão aproveitar o momento para se promover um pouco mais e marcar sua era, se não com obras duradouras e publicamente úteis, pelo menos com as marcas de sua imagem recomendada pelos marqueteiros políticos. Tudo pago com dinheiro público! Nosso dinheiro, caro leitor.

Quer mais? Em muitos municípios, até os papéis e documentos oficiais são reimpressos com a nova logomarca, que deixa o empossado muito vaidoso e o erário mais pobre, sem nenhum valor para a comunidade.

Conseguiu contabilizar? Qualquer pequeno empresário que se utiliza de serviços gráficos vez em quando, sabe quanto custa imprimir um milheiro de panfletos em preto em branco ou folhas com timbre organizacional. Se você não é um deles, pergunte a alguém. Faça uma pequena conta para comparar a dimensão de uma pequena empresa com a de um município, mesmo aquele bem pequeninho... Imagine então esta conta em todo o país.

Claro que estou lembrando que não são todos os 5.563 municípios. Na verdade ocorreram várias reeleições. Para fechar ainda mais o cerco, nas capitais cujos atuais prefeitos foram candidatos à reeleição apenas uma optou por mudança. Será que isto não indica justamente que a máquina, pelo menos quanto a esta imagem, está sendo utilizada em favor pessoal dos mandatários?

O segundo ponto a considerar diz respeito ao abandono do marketing regional, à auto-estima da população, à verdadeira e necessária promoção dos valores locais permanentes, comungados pelo povo, fortalecedores da cidadania e da inclusão. Refiro-me a uma logomarca municipal definitiva, a um brasão, para ser preciso quanto a uma linguagem correta quando se fala de símbolo pátrio, mesmo incorrendo no risco de ser chamado de arcaico. Um símbolo que remeta à região, que mostre uma imagem ufanista, um motivo de orgulho, de atratividade turística, de ato heróico ou quaisquer outros marcos locais, como a planta nativa, o produto agrícola, um representante da fauna... que seja, enfim, eleito pelo povo, discutido em concurso e aclamado por maioria, igual ou, quiçá, maior do que a que empossará o novo prefeito.

Em dois anos teremos este mesmo ritual em nível federal e estadual. Será que antes disso não devemos inaugurar uma discussão nacional a respeito dessa prática? Não será hora de propor uma legislação específica que proíba este oba oba narcisista? Por que temos ignorado até agora este assunto? Ou será que ele é visto, porém negligenciado? A quem interessa?

Fiquemos alertas. Esta pode ser a primeira cobrança a fazer logo na diplomação e posse dos eleitos. Que se estanque os gastos abusivos com marketing pessoal. O candidato ganhou a eleição e o cargo, não a cidades e os municípios que continuam sendo públicos.

Que a vergonha e o respeito ao povo possam ser emblemas escolhido pela maioria deles (duvido!). Mas, conclamo por fim, sejamos nós os fiscais desse processo abominável já que nesses senhores nem sempre podemos confiar.

Temo, entretanto, que seja tarde e que, exercitando um questionável poder antecedente à posse, já se tenha projetado e até “contratado” todo projeto de imagem dos novos governos. Afinal, causará maior impacto se a mudança for executada de imediato. Isto, com certeza, não houvera sido promessa de campanha, uma vez que não é uma ação desejável pelos munícipes. Resta saber qual será a desculpa se faltar dinheiro para executar as promessas feitas, cujo cumprimento é desejado, esperado e até pode ter sido o móvel do voto concedido.

Fiquemos alertas e testemunhemos esta primeira infidelidade dos candidatos, se ela ocorrer.

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