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Seda sobre molambo
O avanço tecnológico se faz com tanta rapidez, que temos dificuldades em seguir-lhe os passos, configurando-se então o paradoxo do melhoramento sem sentido, da técnica supérflua, dos mecanismos e recursos situados no futuro e seu operador ou usuário perdido no passado. É o caso do computador, bicho de sete cabeças à primeira vista, que se torna familiar aos primeiros contatos e, num crescendo em conhecimento do usuário, chega a dar a este a impressão de ter sido dominado. Aí mora a ilusão do mortal deslumbrado com a máquina, pois lá um belo dia ele descobre que outros recursos e outros caminhos há, mais rápidos e eficientes do que os conhecidos até aquele momento. Enquanto conhece o básico, ele se sente o “tal” e assim continuará, se persistir no “feijão com arroz”, em suas atividades específicas, tal como quem escreve e para isso usa o editor de textos. Se tiver espírito “fuçador” chegará à pluralidade de formas e maneiras de atingir o mesmo objetivo, resolver o mesmo problema. É uma questão de interação homem x máquina! O computador veio para melhorar e facilitar o trabalho, dar qualidade de vida, mas antes é necessário que o usuário esteja preparado para usá-lo e que o serviço a ser melhorado esteja ordenado de acordo com o programado e disponível na máquina, pois esta não cria ou inventa. Graças à tecnologia da exploração do espaço, dos satélites em órbita, do desenvolvimento da fotografia digital e da internet cada vez mais aprimorada, qualquer ponto do planeta pode ser visto de distância suficiente para se reconhecerem detalhes nas ruas, edificações, etc. Por meio dos satélites qualquer cidade ou localidade pode ser mapeada e ter todos os endereços identificados, o que muito facilitaria o trabalho dos correios e de entrega do grande comércio. Facilitaria! Facilitaria se todos os logradouros tivessem nome e imóveis estivessem numerados de acordo com regras convencionadas. Como cabe aos municípios a execução desse serviço, e muitos o fazem “mal e porcamente”, incluindo-se o de Ouro Preto, o moderno sistema de localização de endereços via satélite, pela internet, se torna inócuo ou complicador para os que dele se valem. Números pares e ímpares no mesmo lado, numeração feita no sentido inverso, ou seja, do bairro para o centro, e até mesmo colocados à revelia, são os erros mais comuns a atazanar a vida de entregadores. Claro que já foi pior, pois, antes das concessionárias de energia elétrica e de telefonia, pequenas cidades e localidades tinham ruas sem nome e imóveis sem número. Mascates e tropeiros, precursores do moderno comércio e sistema de transporte, se viravam na forma de identificar a casa, aonde deveriam voltar para entrega de mercadoria, receber valores, vender mais ou simplesmente cativar o cliente. Ouvi muitos casos curiosos com relação a isso. Alguns marcavam a casa com sinal próprio (a logomarca de hoje), outros anotavam características (vidro quebrado na janela, a cor da pintura, coisas desse tipo) do imóvel em pequeno livro de registro. Devido às grandes distâncias, o retorno ao mesmo local demorava meses e, assim, acontecia de aquelas características não mais existirem, às vezes nem o próprio imóvel, derrubado e substituído por outro. Mas o engraçado mesmo eram os registros feitos por mascates mais simplórios: “tina d’água na porta”, “cachorro Peri”, “dona de vestido vermelho”, “homem de bigode enrolado”. A tina não mais estava na porta, o Peri podia ter morrido ou estava a vadiar noutra freguesia, o vestido era de outra cor, e o bigode havia sido aparado. E agora, José? Hoje, em qualquer cafundó se dão nomes às ruas e números às casas, mas porque as prefeituras não o fazem de acordo com as normas? A tecnologia está disponível, mas não pode ser aproveitada porque alguns serviços primários são primitivos demais, quase do tempo das cavernas! |