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Alessandro Mendonça

[ Alessandro Mendonça ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Formado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista Nacional (DF) em 1997 e ordenado Pastor batista em 1998.

 

O Vento Sopra Onde Quer

“O vento sopra onde quer. Ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito”  - João 3:8


Jesus é procurado por Nicodemos à noite para um bate papo informal. Nicodemos chega cheio de cortesia e elogios rasgados. Chama Jesus de “Rabi”; diz reconhecer seus milagres e que ninguém poderia operá-los se Deus com ele não estivesse.

Nicodemos era um dos chefes do Sinédrio, a entidade máxima jurídico-religiosa de Israel, algo como uma mistura do STF com a Santa Sé. Jesus não era muito bem visto pelos outros integrantes do Sinédrio, mas Nicodemos parecia ser uma exceção. Um admirador secreto; um “candidato” a seguidor, talvez. Mas Jesus não se impressionou com isso. Em resposta à rasgação de seda do líder judaico disse: “Nicodemos, você precisa é nascer de novo”. Em seguida explicou que os “nascidos do espírito” são como o vento. Isso é absolutamente revelador. Vejamos os por quês:

A primeira característica que me chama a atenção em relação ao vento é que “O vento é livre” – ele sopra “onde quer”. Não há placas nas ruas onde esteja escrito: “aqui é proibido ventar”. Mas Nicodemos não era como o vento. Para ele e sua religião tudo tinha ordem, direção, regra, rigidez. Nicodemos não podia “ventar” onde bem entendesse. Mas os nascidos do espírito, os seguidores de Cristo são livres para sair por aí levando o vento.

Outra característica é que “O vento não faz discriminação”: ele não sopra só nos ricos, ele não sopra só nos fortes, só nos bonitos, nos saudáveis. Sopra nos pobres, fracos, feios e deformados. Sopra onde quer. A natureza do vento é “ventar” e a do nascido do espírito é sair por aí levando o vento do Espírito por onde queira e quanto a isso não há restrições!

“O vento é dinâmico, é versátil” - A religiosidade legalista é estática. Dão a isso o nome de “tradição”. O vento é variável quanto a intensidade (ora brisa, ora ventania); variável quanto aos efeitos (ora incomoda, ora reconforta, suaviza, refresca). O vento é como o Tempo. Tem vento pra tudo: “Vento de vida e vento de morte; vento de abraçar e vento de afastar, vento que dá forma e vento que deforma, vento de apagar fósforo e vento de alastrar incêndio, vento de ajuntar pedras e de espalhar pedras. Tem vento de guerra e vento de paz”. O dinamismo do vento implica em que a Igreja deva viver e servir aos propósitos de seu tempo.

“O vento não pode ser identificado pela aparência” – Como o vento é? Não há como descrevê-lo em termos de percepção visual. O vento não tem forma. Só identificamos o vento pelos seus efeitos (som, calor, frio, chuva, poeira). Assim também o nascido do espírito. Como o vento, ele não pode ser padronizado, uniformizado. A religiosidade de Nicodemos, pelo contrário, era manifesta, explícita. Qualquer um sabia identificar um fariseu, um sacerdote, um guarda do templo. Religião de Nicodemos é uniforme; vento de Jesus é multiforme. A religião te convence que seu cabelo tem que ter padrão, tem que ter forma, tem que ser cortado assim, penteado assim. Vem o vento e te despenteia todo. A religião manda você por uma saia assim. Vem o vento é arriba sua saia. A religião é organizadinha. O vento é transgressor, bagunceiro. Mas o vento só bagunça o que não tem firmeza, o que é leve, superficial. O vento expõe as fraquezas. Como o vento é, a igreja de Jesus deve ser: a igreja deve fugir da tendência de se uniformizar, de se padronizar. Devemos ser identificados pelas marcas e impressões que deixamos por onde passamos.

O vento é imprevisível e misterioso – ‘... não sabes donde vem, nem para onde vai’, disse Jesus. Eu não sei por onde o vento soprou até chegar a mim. Não posso identificar a origem do vento. Mas os religiosos são as pessoas mais preocupadas com a “origem” das coisas: ‘De onde veio isso? Qual a procedência? Isso tem o IS0 9000 do Céu? É aprovado pelo INMETRO da minha igreja? Tem pedigree?’. E, por ser misterioso e imprevisível o vento frustra todas convenções, previsões, tendências. Ele não possui ritos ou tradições. Não podemos saber com certeza onde vai soprar em seguida ou qual será seu caminho. Assim é o nascido do espírito, diz Jesus. A Igreja deveria ser a comunidade do susto: vindo de onde não se espera, indo para onde não se imagina!

O vento é determinante – Ele cria dependências, condicionamentos. Pipas, embarcações, aves, aviões, moinhos, plantações, surfistas e balonistas. Todos dependem dele. Todos esses o consultam. O vento é mais influente que qualquer político, qualquer celebridade. Assim é o nascido do espírito. Mas quem quer saber hoje o que a igreja pensa sobre qualquer coisa?

Naquela noite, naquele encontro, houve uma confrontação do Vento de Jesus com o legalismo pétreo de Nicodemos. O vento soprou na rocha iniciando um processo de erosão eólica. Nós devemos estar abertos às possibilidades e às ações do Vento. O Espírito é como o vento, Jesus foi (é) como o vento. Eu, você e a Igreja também devemos ser como o vento: dinâmico, misterioso, imprevisível, determinante e incontrolavelmente livre!





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