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Flávio Mello

[ Flávio Mello ]
Escritor, Palestrante, Professor e Editor.

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Mulheres Telas e Esculturas Vivas

(Pequeno ensaio poético)


Edouard Manet (1832-1883), Femme nue se coiffant, 1879.
© Christie"s Images Ltd. 

O que é a mulher senão a estrada que leva o homem aos caminhos mais perturbadores que se possa imaginar. A mulher é a teia que a vida tece, é a Pedra Drummond, que em nosso caminho enraíza como ervas e plantas malignas; mas, a mulher por mais diaba que nos pareça sempre será a mulher que há de nos controlar, como Perséfone, como Isabel, Beatriz, como Iracema, Cecília, como Olga, como Rosimeire, etc., entretanto, o que resta ao homem é apenas o fio de cabelo que desprende dos cobertores e vêem dormir em nosso colo, como uma pluma leve ao vento morno das manhãs de verão.

Quando vejo um quadro, digo, impressionista, como por exemplo, um Monet, Manet, um Renoir... noto que a mulher ali descrita é o mais próxima da minha realidade, as formas levemente acentuadas, o rosa, a rosa... as cores que se designam femininas, os traços que se fazem meninas, os olhos ditosos que revelam mil amores, como em Cindo Minutos... a mulher descrita, dita, revelada as nuas cruas, sem disfarçar as formas onde se encontram irregularidades; veja por exemplo, sem querer sair do prumo, a Vênus de Nilo, com suas formas graciosas, com suas curvas delicadas, note defronte ao Dali, que as formas transformam-se em desastres, em silhuetas lúgubres e desgraçadas, mas não se perdem da graça.

Não obstante, o que me vem são sinais de desilusões, a mulher perfumada, maquiada, deitada, nua, que aguarda teu corpo pesado, sujo, bêbado, fétido tal carniça que se desprende dos ossos, que caem dos picos impetuosos dos príncipes da decomposição. E aquele rito angelical, sutil, leve, pueril, onde a ingenuidade se despede da idade, da idade das bonecas e recebe o jato pegajoso dum membro rijo e macilento.

O que na realidade é o homem, algo sisudo, asqueroso, um pênis fraturado, uma hóstia satânica, um refluxo-aborto, um nada..., a mulher sereia do Tejo, hemisfério de prata, de ouro, a abóbada celeste de Deus maculada pelas mãos cobertas de pêlos e calos, que mais parecem dois pedregulhos, tocam a tênue linha rosa, ruborizada, dentre lençóis de seda azuis, em nódoas de sangue e esperma, nas rendas brancas de linho, homem quimera flamejante, mulher escultura d’angelo, Aí... quanta ofensa há nesta poética epistola. Quem sou eu, poetas nada entendem de mulheres, se pressupõem que sim... mas o poeta se faz do amor pelas mulheres não de mulheres, pois quando os dedos graciosos, pálidos dos poetas adentram o território puro das fêmeas delineadas em seus poemas, a poética reflexão se perde num mar de desilusões!

No mais, o que verdadeiramente nos importa é saber distinguir um Manet de um Monet!

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