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Jurandir Araguaia

[ Jurandir Araguaia ]   Veja o Perfil Completo deste Colunista
Escritor goiano. Premiado no Concurso FC do B - Panorama 2006/2007 (www.fcdob.com). Publica textos que tratam com bom-humor o cotidiano, quando a situação permite, e mordiscando universos fantásticos...

 

Comprar Livro Pela Capa

Era encadernado em couro branco, puro luxo, mas com a capa preta, tendo a foto de uma estátua grega representando um filósofo, que não consegui identificar qual era. As letras em vermelho e escrito em um idioma incompreensível. Encontrava-se exposto em um sebo para livros em perfeito estado de conservação. Era grande, do tamanho de um volume típico de enciclopédia, devendo ter cerca de 40x80 cm e pesando uns 2 quilos. A foto do filósofo e uma frase logo acima, ao canto direito, em letras que não conseguia identificar, me hipnotizaram.

Encontramos muitas coisas nesses sebos, indo de preciosidades aos últimos lançamentos, passando pela literatura infantil e a inevitável auto-ajuda. Por mais que olhasse para outros livros, folheando ora um, ora outro, o livro grego me atraía. Minha esposa, na certa, quando chegasse em casa com aquele exemplar estranho, escrito em uma língua que não conhecia, provavelmente subiria nas paredes, ou me faria subir.

Escritores possuem muitos hábitos estranhos. Costumo sair e, mesmo no convívio social, acabo fixando os olhos em detalhes que ninguém percebe, ou acredito que não perceba. Acabo reparando no tom de voz, nos olhares de soslaio, escuto pausadamente cada frase, percebendo o sentido oculto, ou provocativo do interlocutor e, assim, acabo por conhecer cada pessoa melhor que ela mesma se conhece.

De início me encantava ao ser apresentado como escritor, mas com o tempo percebi que algumas pessoas ficam inibidas diante de alguém que se decida ao universo das letras. Não sei ao certo qual o motivo do incômodo. Poderia ser por temerem saber menos, ou acreditar estar diante de alguém que irá desmascarar a falta de cultura ou ser pego ao cometer uma gafe verbal. E eu sou o rei das gafes.

Sei que parece inusitado, mas muitas pessoas sentem desconforto ao lado do que chamam de intelectual. Sempre detestei este rótulo. Geralmente associava-o, na minha ignorância, a pessoas que somente se importavam com livros, com questões além da compreensão dos reles mortais e acabavam se distanciando da sensibilidade humana básica. Temia compararem-me a um senhor careca, barrigudo e de óculos, muito bem articulado, mas que não possuía um pingo de cordialidade.

Descobri estar errado e, à medida que me apresentam como intelectual, sem que esteja ao certo convencido de sê-lo, por que sei o quanto ainda tenho que aprender, afligi-me um grande incômodo. A fauna humana se aglomera em várias tribos que se rotulam mutuamente. Desejando, desde a infância, ser o indivíduo humano e aproximar-me de todos, acabava por não querer pertencer a grupo nenhum, ou a qualquer ¨panelinha¨, como dizem por aí. Porém o mecanismo de atração humana é impressionante e acabava enfileirando-me com pessoas parecidas comigo, ou seja, apreciadores de esportes, de livros e de filmes.

Dizem que você descobre a sua casta quando passa a fazer coisas absurdas em prol do benefício da tribo, ou a adotar opções que atestam a categoria à qual pertence. Portanto, se intelectual for aquele que adora livros, conversar sobre livros, escrever, participar de debates a respeito da humanização ou da falta desta, ou qualquer assunto que vá contra os interesses manifestos em programas como o Big-Brother, eu confesso: sou um intelectual.

Todavia, dizem que ninguém deve adquirir um livro pela capa, ainda mais sendo escrito em grego e de filosofia. Mas era um livro persuasivo, com uma atração irresistível e que ficaria bem na minha estante. Estaria eu disposto a enfrentar a ira da minha esposa que, apesar do bom senso, não mais suporta ver a casa apinhada de livros em troca da satisfação do meu ego?

Coloquei o livro embaixo do braço e perguntei o preço. O valor era estonteante para um livro. Minha cabeça girou rápido.

- O senhor fala grego? – perguntou o vendedor. Foi uma pergunta fatal que congelou o universo à volta e fez com que as dezenas de pessoas que estavam por ali levantassem os olhos e me encarassem por um segundo que durou meio século. Senti a punhalada que cada uma lançou. Engasguei, passei o livro à mão do vendedor e saí de fininho:

- Hablava, hablava...





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