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Oportunistas de plantão
O mundo entrou em polvorosa com outra epidemia de gripe, entre as mais destacadas, pois é verdade que a cada ano uma onda dessas percorre o mundo, porém em nível benigno, não chegando a assustar a coletividade. Mas, de vez em quando, ele parece “sacudir as pulgas” na área da saúde e, aí, sai de baixo, porque a magra da foice tem pressa na colheita, não se importando muito se o fruto está verde, maduro, ou mesmo na hora de cair. Quem está na mira vai de roldão. Na segunda década do século vinte, anos dezoito e dezenove, ela veio sob o nome de “gripe espanhola” (alusão à guerra civil espanhola) e fez milhões de vítimas em todo o mundo. Só no Rio de Janeiro foram quase quinze mil mortos em dois meses, de outubro a dezembro de 1918, segundo registros da imprensa, que também informam terem morrido cerca de quarenta milhões em todo o mundo, superando o número de mortos em combate de várias guerras, incluindo-se as duas mundiais. E a eclosão da moléstia se deu quando terminava a primeira das grandes guerras. Noticiário da época, no Brasil, faz relatos dramáticos como os de casas onde todos adoeceram e não havia quem os assistisse; pessoas que tombavam na rua e ali ficavam até morrer; chegou a faltar quem levasse os mortos aos cemitérios e, nestes, não havia coveiros. A doença chegou ao Brasil por descuido das autoridades, que desprezaram informações vindas da Europa, acreditando que o oceano seria obstáculo à propagação do vírus. E a medicina ainda não estava suficientemente capacitada a combatê-la. Outra onda varreu o mundo em 1957, muita gente foi acometida da gripe asiática, que chegou a fazer cerca de um milhão de mortos no mundo, número bem menor que as vítimas da “espanhola”, fato que se credita ao nível de malignidade, bem abaixo da gripe anterior e também ao desenvolvimento da medicina. Outro susto, com a gripe de Hong Kong, o mundo levou em1968 e, novamente, grande número de mortos se somou às estatísticas das epidemias e pandemias. Posteriormente, em mais duas ocasiões, também a partir da Ásia, gripe mortal foi contida, antes que espalhasse o terror. Com o nome de “gripe suína”, por ter seu vírus se modificado geneticamente no organismo do porco, esta chegou causar início de pânico, mais por influência da mídia, contrastando com maior eficiência por parte dos governos e capacidade da ciência, que tomaram providências no devido tempo e mantém intensas pesquisas em laboratórios com vistas ao controle da doença. Deixando de lado razões de saúde, uma vez que não se contamina com o vírus da gripe pela ingestão da carne de porco, o oportunismo, entre judeus ortodoxos e muçulmanos, se vale da hora para banir o animal, considerado impuro dentro daquelas culturas. Vale o princípio: se a maioria repudia o porco e não come da sua carne, que ninguém o tenha e ninguém dele coma. No Brasil, apesar das informações tranquilizadoras e favoráveis ao consumo, grande parte da população deixou de consumir carne de porco; consequentemente, seu preço tende a cair. O temor do “gato escaldado” é que inventem nova peste suína para justificar matança dos “tués” e, assim, evitar queda dos preços. É bom lembrar que, no segundo semestre de 1978, o país foi surpreendido com a notícia de surto de peste suína africana, cujo foco estaria no interior do estado do Rio de Janeiro. Imediatamente começou matança indiscriminada de porcos, muitas vezes mediante ameaças a pequenos criadores renitentes. Ao mesmo tempo em que criadouros eram visitados por brigadas de matadores de suínos, chuvas torrenciais precipitaram-se sobre os estados do Rio, Minas e Espírito Santo, cujas populações sempre foram as maiores consumidoras da gordura de porco. As atenções então se voltaram para as conseqüências das enchentes, deslizamentos de terra, desmoronamentos e muitos mortos. O combate à peste suína foi esquecido. Curiosamente, cessadas as chuvas em princípios de março/79, ninguém mais se lembrava da peste suína, mas dos supermercados a gordura de porco havia sumido, dando lugar ao óleo de soja. E do chiqueiro saiu o porco de banha, para dar lugar ao porco de carne. As chuvas vieram a calhar para os interesses da indústria da soja! |