Quem nunca se identificou com algum personagem da novela? Quem já torceu pelo mocinho ficar com a mocinha ou o bem vencer o mal? Você já achou que a novela parece com a realidade? E já pensou na possibilidade dela fazer parte da sua família, da sua vida?
É impressionante quando alguém bate na nossa porta ou o telefone toca e não queremos atender, porque a melhor parte da novela está passando. Quanta agonia dá em ter que sair e perder a novela, e quando isso acontece perguntamos, depois, para alguém o que passou e pedimos para nos contar tudo nos mínimos detalhes. E a vida dos atores? Sempre ficamos informados de “tudo” que cerca a novela que gostamos, entramos em sites, compramos revistas, assistimos programas que falam sobre as novelas e até incentivamos amigos a assistirem o que gostamos. Enfim, todas essas atitudes nos fazem perceber o quanto a novela é importante em nossas vidas, parecendo até que fazemos parte dela. É como se vivêssemos um romance.
Em contrapartida, na idéia teórica, a novela é apenas uma narração em prosa de menor extensão do que o romance, que apresenta uma maior economia de recursos narrativos e um maior desenvolvimento de enredo e personagens. Se alguém te perguntasse o que é novela, você responderia isso? Acho que não. Pois é, a telenovela tem fortes elementos que nos fazem perceber que é um romance que envolve todas as pessoas da família e com ela não nos sentimos só.
A novela, basicamente, é formada pela referência do cidadão médio, no registro individual - apesar de acharmos que foi pensada no coletivo -, e seu fluxo opera sobre as ações sociais, sendo capaz de lidar com a política, economia e também tem a possibilidade de organizar e gerar uma cotidianidade, através do conteúdo de sua veiculação. Sem contar que, a novela investe bastante no discurso publicitário, que resulta no aumento do consumo e usa sem limites a representação, simulação da realidade.
De acordo com, Muniz Sodré, a simulação televisiva de uma realidade cotidiana aceitável é possível por que o medium se impõe no nível da produção de discursos sociais. Além disso, ele ainda diz que a representação social fornece ao medium um esquema de intervenção no fluxo dos eventos cotidianos, precisamente porque a sua principal função é a comunicação de fatos da vida comum e a ação sobre outros indivíduos e o meio ambiente. Isso nos faz perceber a forte presença da idéia da telenovela trabalhar com a ideologia familiar ou doméstica.
Além de a novela ser uma boa fonte de informações, ela é um dos melhores entretenimentos que já foi criado. A partir da novela, fomos num convento, numa senzala, num labirinto, num castelo mal assombrado, numa fábrica de chocolate, em diversos momentos históricos, na China, no Rio de Janeiro, em Marrocos, e agora estamos na Índia. A novela é uma janela aberta para o mundo e, sem dúvidas, é capaz de construir a realidade.
Para Elizabeth Bastos Duarte, existem três discursos que constroem a realidade: a meta-realidade, que tem como referência direta o mundo exterior e natural, constituindo-se naqueles produtos que tem por base acontecimentos exteriores ao meio sobre os quais a tevê não detém controle e sempre agem com verdade e fidedignidade; a supra-realidade, que não tem compromisso direto com o mundo exterior, mas com uma coerência interna ao discurso que produz, constituindo-se naqueles produtos ficcionais que tem por base a verossimilhança, pautando-se por suas próprias leis, convenções e regras; e, por último, a para-realidade, que é um novo tipo de realidade veiculado pela televisão, que não tem como referência o mundo exterior, mas um mundo paralelo cujos acontecimentos são artificialmente construídos no interior do próprio meio que tem por base acontecimentos provocados e controlados pela própria televisão, seu propósito é o de representação.
Se a supra-realidade já nos torna mais próximos dos acontecimentos que passam nas novelas e é capaz de misturar a ficção com a realidade, a para-realidade nos faz pensar que o que passa na telenovela é a realidade.
Você já sentiu que em determinado quadro de uma novela, sua vida estivesse sendo representada? Todos os seus gostos, sua rotina, seus desejos... Até parece que pesquisaram sua vida por todos os ângulos, e isso faz com que na maioria das vezes você comece a agir conforme o desenrolar da história que tem “tudo” a ver com você. Dessa forma, a ficção deixa de ser mentirinha e passa a ser realidade.
Enfim, hoje a telenovela tem uma relação paralela com a sociedade. Por conta disso, ela tem feito uma metalinguagem, quando usa a referência da telenovela como base para outros programas. Como Elizabeth diz talvez o mundo artificial em que atualmente se vive seja o verdadeiro, embora artificial. É que na verdade, antes sustentada pela correlação tempo-espaço, passou ancorar-se na auto, co e na inter-referencialidade das mídias, dispensando parâmetros do mundo natural, nos quais fundava seus critérios. Assim, a novela só é ficção para quem não assiste ou não se identifica com as histórias, pois todo enredo é baseado na realidade, mesmo sendo uma realidade desconhecida por muitos.