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Nylton Batista

[ Nylton Batista ]
Redator de jornal há cerca de vinte anos. Também escreve contos, alguns dos quais publicados em antologias.

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Asneiras emolduradas

Todo mundo tem direito a cometer gafes, de vez em quando, e, que atire a primeira pedra quem nunca as cometeu. Mas, tê-las como espécie de marga registrada em encontros, reuniões importantes e nas vezes em que se dirige ao público é coisa que não fica bem em estadista. Mas, isso não é levado em conta por nossa mais alta autoridade, que fala nas ocasiões mais solenes como se estivesse em conversa de botequim. Chega a nos dar um frio na barriga quando ele começa falar!

Depois da fama e façanhas no reino do futebol, o Brasil corre o risco de ser mais lembrado lá fora graças a gafes ou mancadas do presidente da República, incontinente no verbo e carente de cultural geral. A última trapalhada aconteceu na Turquia, semana passada quando, querendo ser engraçado em encontro com empresários turcos, o presidente soltou esta: "No Brasil, tem uma coisa interessante que vocês precisam conhecer: apareceu alguém vendendo algo na porta de um brasileiro, ele sabe que é um turco que está vendendo". Essa declaração configura confusão histórica feita pelo brasileiro comum, que denomina  “turcos” os sírios e libaneses; estes, sim, imigrantes que ajudaram a interligação das cidades brasileiras por meio do comércio de porta em porta. Por terem os primeiros, dessas nações, emigrado para o Brasil, portando passaporte emitido pelo Império Turco-otomano, que dominava o Líbano e a Síria - seus países de origem - eles ficaram conhecidos como “turcos”, na verdade uma ofensa aos brios de sírios e libaneses.

Imagine-se o mal estar causado entre os turcos, que não têm presença significativa no Brasil e são vistos com reserva pelas comunidades síria e libanesa, devido aos antecedentes históricos. Não teria acontecido, se da parte do presidente houvesse comedimento e, das Relações Exteriores, boa assessoria para preveni-lo contra incursões em terrenos movediços das relações internacionais.

Poucos dias antes, a verborragia presidencial escorregou feio diante da televisão  ao minimizar o perigo representado pela gripe suína. Em sua concepção, diante dos números estatísticos relativos à doença, a gripe suína não seria o que autoridades do setor de saúde haviam anunciado. Ainda em sua concepção, teria havido exagero quanto aos riscos que a gripe representa para a população humana. Ora, a gripe só não tem feito mais estragos, causado mais mortes, porque a ciência tem avançado muito na prevenção e controle de epidemias, contando ainda com ajuda da tecnologia, que dispõe a informação instantânea, permite monitoramento das ocorrências, além de outros recursos. Não fossem esses avanços, o número de vítimas fatais já estaria na casa dos milhares ou milhões, como a “asiática” em 1957 e a “espanhola” em 1918. Caberia, sim, enaltecimento aos homens de ciência, cujos estudos permitem mais segurança à saúde pública.

Mas,  o presidente não está sozinho a falar bobagens. A mídia também faz das suas. Está no ar anúncio de produto, cuja marca comercial é “Totvs” (pronuncia-se “tótus” e significa totalidade em latim), apresentado por conhecida jornalista, atriz, apresentadora de televisão e outras especialidades profissionais. À curiosidade sobre o “v” em lugar do “u”, o anúncio explica que, em latim, “totus” se escreve com “V”! Oh! Santa ignorância! Ao contrário, em latim clássico, era assim que se grafava o “U” e não havia a letra “V”, pois não havia o som correspondente, assim como também não havia a letra “J”. Essas duas letras só entraram no chamado “latim vulgar” (somente falado) surgido por influência das línguas, com as iguais o latim interagiu, no processo do domínio romano. É muito comum, nas antigas inscrições latinas, a presença do “U” sob a forma do “V” .
Seria bom que publicitários, antes de aplicar sua criatividade, procurassem conhecer melhor o assunto ao qual se liga o produto em foco. Asneiras? Já nos bastam as do dia a dia!

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