Quando viemos do interior para a cidade de São Paulo, eu tinha dois anos de idade. Viemos direto para Santo André e fomos morar na rua Utinga (atual Av.Dom Bosco), no Parque das Nações.
Lembro-me das vezes em que fomos pegar trem em Santo André, iamos a pé, não havia ainda onibus no Parque das Nações e nem nos outros bairros.
Saíamos de casa bem cedinho, deciamos a rua Utinga até a ponte. Daí dava para avistar os campos que ladeavam a rua Columbia, não havia ainda casas nesse lugar.
Do lado de baixo da rua Columbia existia uma depressão causada em decorrência da retirada de terra, pela olaria que aí existira alguns anos antes. Essa olaria fabricava tijolos, muito em voga nesse lugar naquele tempo, porque estavam começando as vilas nas periferias de Santo André.
Nessa depressão, o campo todo coberto de uma única quelidade de flor do campo,haviam tantas, e o campo tão fechado dessas plantas, que parecia todinho coberto de queijo ralado cor-de-rosa de cheiro característico.
Do lado de cima da rua Columbia, o outro campo era todinho amarelo, pois a única qualidade de flor do campo aí era amarela e diferente em forma e tamanho. Era um outro tipo de flor, também de cheiro característico.
Daí da ponte, pegávamos a rua Holanda. Ela começava aí na ponte, ou terminava. Aí na rua Holanda já existiam casas, mas só depois da esquina, onde ela cruzava com a rua Columbia e havia uma venda, onde todos compravam. Era a venda do Seu Benedito.
Subíamos a rua Holanda, passando pelo cruzamento da rua Itália, depois o da rua Bélgica; da rua França, o outro, rua Espanha; Suíça, e Avenida Brasil. Depois passávamos por umas ruas do Bangu e íamos sair na rua Oratório.
Aí, tanto de um lado como do outro lado da rua, eram as casas dos engenheiros da Rhodia, eles eram todos estrangeiros, talvez todos franceses. As casas eram parecidas. Haviam também as quadras de esportes desses engenheiros.
Essa vila de casas dos engenheiros ia do Bangu até o Rio Tamanduatei, chamado naquele tempo de rio da Rhodia.
Passávamos a ponte do Rio Tamanduatei; depois em frente à Rhodia Química, após do lado da fábrica Kovarik, pegávamos a rua em frente a Kovarik e entrávamos pela Bernardino de Campos, que passava pela porteira do trem.
A porteira do trem era aberta e fechada por um funcionário da Estrada de Ferro fardado. Quando passava o trem essa porteira era fechada para os transeuntes e aberta ao trem. Quando este já havia passado ela era abera aos transeuntes e fechada ao trem.
Depois que passávamos a porteira virávamos a direita, na calçada; logo alí já era a estação de trem.
Comprávamos o bilhete do trem, e para ter acesso ao lugar de embarque, era preciso passar por um portãozinho de ferro, onde ficava um funcionário absolutamente fardado. Com um alicatezinho na mão, que dava um pico, fazendo um buraquinho nas nossas passagens, as quais, depois do pico, nos eram devolvidas novamente.
Me lembro bem daquele lugar onde embarcávamos no trem, era um lugar pequeno. Naquele tempo havia pouca gente para o embarque era um buraco o fim da linha. O trem de passageiros só chegava até aí.
Eu gostava de ficar ali na plataforma de embarque, vendo aquelas máquinas grandes, pretas e barulhentas fazerem as suas manobras. Era encantador.
Os homens carregavam feixes de lenhas para dentro dessas máquinas antes delas serem acopladas aos vagões.
Depois de tantos vaivéns dessas máquinas em suas manobras e dos funcionários indo e vindo para dentro delas, preparando-as para as viagens, enfim elas eram acopladas aos vagões.
Aí fazia um barulhão de ferros engatando, junto com o barulho de soltar vapor da máquina e era uma fumaceira, de fumaça de lenha queimada com fumaça de vapor.
Era gostoso ver toda aquela fumaceira, ainda mais com todo aquele barulhão.
Aí subiamos no trem que, quando parado, de vez em quando dava um tranco, seguido por um barulhão.
O piso do trem era feito por trilhos em filetes compridos de ferro, um encostado no outro, que ia de um extremo ao outro do vagão.
Os bancos eram de tabuinhas de madeira envenizada. Os encostos dos bancos eram móveis, podendo o passageiro escolher o lado que ele queria estar de frente só posicionando o encosto do banco.
Então o trem partia, era um chacoalhar de cá para lá sem fim. Era preciso segurar com força para não cair.
O chacoalhar do trem seguia o seu barulho, era um Chão, Chão, chão, sem fim. E lá ia o trem: CHÃO...CHÃO...CHÃO...CHÃO...CHÃO...CHÃO...chão...chão...chão...até o fim da viagem.
De vez em quando vinha um homem de farda com seu alicatinho, picar o bilhete
de todos os passageiros. No fim da viagem, depois dos passageiros terem descido do trem, os bilhetes eram entregues a outro homem de farda, agora todos cheios de buraquinhos.
Chau...! Boa viagem...! CHÃO...CHÃO...CHÃO...CHÃO...chão...chão...chão...chão...chão... Adeus...! Maria Fumaça...Quanta Saudade...!