Cheiro de fumaça misturando querosene Jacaré com madeira ainda verde. Ar impregnado de cheiro de pólvora queimada e barulho de bombas e traques, foguetes e rojões enchendo o céu de alegria e festa.
É São João.
Junho é inverno. Chovem fogos de artificios e crepitar de madeira assando espigas de milho, batata doce e cebola graúda.
É São João.
Junho, de mesas fartas de canjica e bolo de aipim, macaxeira, mandioca, bolo de milho, puba, amendoim cozido, laranja de umbigo, licor de jenipapo, curtido desde o ano passado.
Cheiro de fumaça se misturando com música de Gonzaga na voz de tantos discípulos.
Arrasta pé no terreiro, nas ruas, vielas e ladeiras.
Roupas remendadas sem estarem rasgadas, lenço vermelho no pescoço, conga Sete Vidas e chapéu de palha comprado na feira, a aba desfiada.
Os pratos de canjica nas mesas, amendoim cozido com gosto de fogueira, com gosto de São João...
Hoje é tudo diferente.
A música de Gonzaga já não tem o ritmo de Gonzaga, já nem se compra traques para a gurizada, é somente rojão.Acabou a farra dos foguetes, quando os moleques corriam atrás das flechas; a brincadeira inocente das quadrilhas formadas para brincar... Para que prêmios em dinheiro? Participar já era um prêmio.As portas escancaradas. Um entra e sai infinito.Durante o São João não havia inimigos e nem desavenças. Vizinhos eram amigos e parentes. Havia trocas de pratos e garrafas, trocas de gentileza, como se São João apaziguasse a guerra.Hoje é diferente.As quadrilhas disputam carro do ano, têm presidente, vice, secretário, empresário, viajam em ônibus com ar condicionado, contratados e contratadas por prefeituras e clubes da moda.
Há brigas nos salões, drogas e orgias.
Nas saídas, policiais armados e aborrecidos descarregam sobre foliões desprevenidos sua fúria e seus traumas.
Nem parece São João.
Pelo menos o São João de meu tempo. São João de radiola e discos de vinil, 78, 45 rotações, depois surgiram os discos de 33 1/3, as fitas cassete...
Os sanfoneiros nas portas, tocando e cantando, bebendo e comendo... Hoje é diferente. A festa é com CD, e os sanfoneiros foram substituídos pelos “chicletes com bananas”, pelos “dj´s”... Ficou mais triste o meu São João.Para comer canjica e pamonha, amendoim cozido e milho assado, só comprando nas barracas oficiais...Acabaram com o licor de jenipapo, preparado na bacia de flandres, a mesma bacia que lavava calçolas e cuecas samba canção.A farra de descascar o milho verde e o coco seco... Nem música de São João tem mais.As cantoras mostram as coxas e os peitos avantajados e lá embaixo uma horda desesperada se esfrega como se dançasse as danças de meu tempo, as danças de meus sãos joãos.