|
Antes que o sol se ponha!
Antes que o sol se ponha! - ela disse para si própria. Logo o sol vai se pôr, o dia findará e perceberás que não se deu à liberdade de permitir-se. Perdeu-se em pensamentos vãos, em memórias furtivas enquanto a claridade do dia fugia-lhe. Talvez termine a claridade da vida sem que tenhas tornado possível coisas que nunca se permitiu. Viajar, conhecer outras culturas, escrever um livro, morar numa casinha à beira da praia. Enquanto é dia, permita-se! - ela insistiu severamente. Quem sabe o pôr do sol te lembres de tudo o que deveria ter concretizado ainda em tempo e não o fez. Antes que caia a noite! A noite é inevitável e, nesta época do ano, imensamente fria. Quando a última noite chegar não haverá mais tempo. Tempo para tomar sorvete, para gargalhar, para dar um abraço, cantarolar, visitar os amigos, ir à igreja, tomar outro sorvete. Permita-se enquanto podes! Pois certas coisas tem o seu próprio tempo, dia, hora e minuto para se tornarem possíveis. Antes que o sol se ponha! - ela repetiu sem convicção alguma. Se tiver sorte, um outro dia nascerá, o sorvete ainda estará lá, a gargalhada congelará, o abraço esperará, os amigos não se irão, a igreja resistirá... Estava acostumada com a liberdade do sol de sempre voltar pela manhã. Mas era como se nunca fosse o mesmo sol de ontem, talvez porque o tempo nunca andou para trás. Os últimos raios de sol se iam furtivamente, levando os últimos instantes de permitir-se, fazendo escurecer a noite e os pensamentos.
|