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Maria Laurentino

[ Maria Laurentino ]
Há quase cinco cursando a Escola Livre de Literatura, na Casa da Palavra, onde venho intensificando a minha escrita.

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Eu e o Presidente

Era domingo, o então presidente da República João Goulart viria fazer uma visita em Santo André. Estava marcada sua audiência ao público às dez e trinta horas, na Praça do Carmo.

Eu e minha prima iríamos a esse encontro. Antes de sair de casa tomei um banho de bacia (naquele tempo a eletricidade nos bairros de Santo André era coisa nova e rara, água encanada também).

Chegamos à Praça do Carmo cedo demais. A multidão se aglomerava em frente às escadarias da igreja. Tomamos lugar ao lado da multidão. Nos embrenharmos lá no meio não era do nosso feitio.

Passava o tempo e nada do presidente chegar. Ninguém arredava o pé dali. O sol a pino. O calor aumentava.

O banho de bacia esquentara o meu corpo mais que o normal. De repente, senti uma cascata de suor descendo pelo meu corpo, ao mesmo tempo que sentia uma fraqueza tremenda, não conseguia parar em pé, os meus sapatos ficaram cheios de água.

Só havia um lugar onde não estava batendo sol, era ao pé das escadas do lado esquerdo da igreja. Havia ali a sombra da igreja e dos arbustos altos que existiam ao pé da escada.

Não titubeamos, transpomos a linha imaginária que separava o povo do lado esquerdo da igreja e ficamos encostadas na sua parede, no primeiro degrau de escada.

Logo me senti bem. Resolvemos voltar junto ao povo, e antes que pudéssemos sair dali, um punhado de homens surgiu de repente, falando alto e andando rapidamente.

Olhei e dei de cara com o presidente que estava se dirigindo a mim, estendendo a mão para me cumprimentar.

Desenxavida por ter sido pega em flagrante, correspondi ao seu aperto de mão e agradeci suas palavras, dizendo que o prazer era todo meu. Daí ele se dirigiu à minha prima cumprimentando-a também com as mesmas palavras de carinho e um aperto de mão. Depois se voltou novamente para mim tirando a capa que trazia sobre o seu braço e me oferecendo-a para que eu a segurasse, colocando-a sobre o meu braço. Dirigiu-se então à minha prima, oferecendo a ela o guarda-chuva que ele trazia na mão para que ela o segurasse. Depois acompanhado do bispo de Santo André naquele tempo, D.Jorge Marcos de Oliveira, subiu as escadas, tomando posição, lá no alto e no centro da escada, de onde ele falou ao público.

Logo que o presidente e D. Jorge subiram as escadas, um homem da comitiva  do presidente, veio a nós, agradecendo a gentileza e tomando a capa e o guarda-chuva do presidente.

Até hoje fico pensando o que o presidente fazia carregando uma capa como aquela, de tecido preto e tão grosso, daqueles tecidos que só haviam no estrangeiro, onde neva, e um guarda-chuva, se o tempo era absolutamente límpido?

Voltamos então junto à multidão, em frente as escadarias, para ver e ouvir o presidente falar.

Ele falou de reforma agrária e de casa para todos, dizendo que todo mundo tinha o direito de ter casa própria, não importava sua renda mensal, e que o preço da casa tinha que ser proporcional ao que o trabalhador ganhasse.

Foi o primeiro presidente brasileiro que falou de reforma agrária, e de casa para todos. E o único que falou só depois de estar ocupando o cargo. Acho que foi por isso que alguns anos depois, ele foi vergonhosamente tirado do seu poder e banido do país, como se fosse um criminoso. No mesmo tempo, o bispo de Santo André, D. Jorge Marcos de Oliveira, também foi deposto do seu posto, só porque naquele dia ele trouxe a Santo André o presidente João Goulart.

Ambos foram acusados de comunistas, coisa que nenhum deles era e naquele tempo se pensava que comunistas comiam criancinhas. E o povo acreditava naquilo que queriam que ele acreditasse.

Isso me fez ter certeza que a tal renúncia do anterior presidente da República Jânio Quadros não tinha nada a ver com bebedeira ou alguma inconstância dele, como nos queriam fazer acreditar. Era um golpe, que começara desde aí, golpe este que não se consumara com a retirada do presidente Jânio Quadros, porque o vice de Jânio, João Goulart, heroicamente assumiu o poder no lugar dele.

O resultado de tudo isso foi o longo período de ditadura que o Brasil sofreu depois desse tempo.

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