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Flávio Mello

[ Flávio Mello ]
Escritor, Palestrante, Professor e Editor.

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A Prece

 Meu deus, onde estou, não vejo palmos de luz, palmo de visão, congelada, fotografia, retirada, preta e branca. Não sou mais de tinta, cor, não sou mais de pedra-sabão.

 Sei que é tarde uma, duas, três, quatro e meia da madrugada, mas o sol não nasce, aborta-me, desilusão!

 Não sei onde estão meus sapatos, não sei de meu lar, não encontro o porta retrato.

 Que desilusão!

 Sei que é parte de pó, terra, água de porão... não me és entregue a receita deste bolo de carne-humana, não me é absorvida a essência de um benjoim, de uma mirra, que de birra me é oferecida.

 Meu Deus... meu Deus!

 Parte que de mim, me conheço, que é eterna, de luz, de aquarela, parte de mim que se fosse, Oxalá, cá entregue numa bandeja de prata, cabeça de Batista, saberia distinguir o que é de massa, ou o que é de luz!
 
 Não, isso não me basta.
 Bastaria, juro que sim, bastaria que o sol surgisse de laranja, violeta, amarelo e etc.

 Mas, nunca o tanto é suficiente, nunca a porcentagem é de valor, obviamente não me seria a vida entregue em vista, ou a vista, a não ser em demoradas e eternas prestações de escravidão.

 Rezo... não por meus maus bocados, que abocanho em minuto e em seguida vomito, rezo... pelos meus pecados que não são poucos. Eu rezo... rezo por mim, por você e por todo mundo.

 Quando vejo a fome nos ossos negros do menino, na face atrofiada da mãe de mamas elásticas, barrigas cancerígenas, tumores que andam pela fome, pela angustia, pela má sorte.

 Rezo...

 Quando a prece parece estar escassa, vou eu cantando aos céus aos deuses, não que eu seja politeísta, não que eu seja... meu Deus eu não sei rezar, não sei precear. Não sei, não sei... eu não sei mais nada, mas...

que nada, quem sou eu para saber!?

 Meu bom senhor, Deus, meu Deus! Clamo a ti, dono dos mistérios, da escuridão fria da noite e do calor do sertão, senhor das mães virgens, dos corações carpinteiros, das mãos dos artesões, dos que fazem do ouro, da prata, do bronze esculturas em teu nome... eu te peço, não de joelhos, de joelhos não... que me perdoe, me perdoe por não poder ajudar as almas que me fazem chorar!

Que Assim Seja!!!

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:: Quero ( Crônicas e Poesias - Gilson Pontes )

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