Naquele dia amanheceu chovendo. Do meu quarto dava para ouvir o barulho da água caindo na calha. Embora já fosse tarde e todos já estivessem levantados, eu ainda continuava na cama. Eu gostava de ficar ali deitada depois de acordar, pensando, imaginando coisas. Naqueles momentos a minha própria vida não existia, uma outra vida à parte tomava o seu lugar.
Um barulho à porta veio tirar-me dos meus devaneios. Eram as minhas tias, elas vinham arrumar as camas. Ajeitavam as outras camas primeiro, enquanto eu fingia estar dormindo, depois vinham tirar as minhas cobertas uma a uma, aí eu era obrigada a pular da cama, para não levar umas chineladas.
Que massada! – resmunguei. Ter que ir à aula com chuva e tudo.
Faltar à aula por qualquer motivo era coisa que nunca passou pela minha cabeça. Compromisso de qualquer espécie era cumprido ao "pé da letra" custasse o que custasse. E foi assim que às dez horas eu já estava a caminho da escola, onde eu entraria às onze.
Eu tremia de frio debaixo do meu guarda-chuva. Impotente sob tal aguaceiro, os meus pés gelavam dentro das minhas alpargatas, de sola de barbante já tão gastas, que o barbante parecia um penacho, e os meus dedos ficavam a olhar a paisagem pelas janelas.
O caminho da escola passava por uma olaria. O chão era barrento, precisava "ser de circo" para não levar um tombo.
Eu andava por uma pequena enxurrada, cujo leito lavado pelas águas era menos escorregadio.
Em dado momento senti alguma coisa agarrar-se em meu pé, levantei-o e deparei com um pequeno batráquio, não sei se era sapo ou rã, só sei que ele era tão pequeno, tinha uns dois centímetros de comprimento.
Pobrezinho...! – exclamei. Estava quase a morrer afogado...! Gelado...! Coitadinho...!
Envolvi-o no meu lenço e guardei-o no meu bolso.
Na escola, eu nem ouvia o que a professora falava, só pensando no meu bichinho. Não via a hora de chegar em casa e poder cuidar dele.
Em casa, ofereci-lhe leite, ele não quis e recusou todos os alimentos que eu vim a lhe oferecer.
Preparei uma cama bem macia e quentinha, numa caixa de sapatos.
No outro dia novamente, ele recusou toda e qualquer comida. Eu já estava preocupada com o meu bichinho.
Há muito que eu vinha esperando alguém, alguém para amar, alguém que se deixasse amar por mim, numa espera incontida, fazendo pressão dentro de mim, que estava pronta para explodir.
O meu bichinho não era gente, mas de certo modo sentia, não sei se ele chegou a sentir, a força dessa explosão. Mas eu senti, e senti também, que com a chegada do meu bichinho, ele me deixou apta para amar todos, sem olhar a quem. Por isso, quando alguns dias depois o meu bichinho morreu, eu não senti muito, pois sabia que tinha todas as outras partes de Deus para amar.
Às vezes amamos tanto alguém, a ponto de tirarmos seus direitos de indivíduo. Um dia ele morre em nossas mãos, vítima do nosso grande amor, não do amor que sentimos por ele, mas do grande amor que sentimos por nós mesmos.