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Mistério nas Mortes do Zôo
Desde o início do ano morreram, no Zoológico de Goiânia, 69 animais. A extinção em massa das variadas espécies assusta a população e virou tema de debates que se espalham, tal gripe suína, por todos os cantos da comunidade. Conversa-se nas esquinas, pontuadas por bares, nas filas, nos mercados, nos corredores de empresas e de repartições. Criou-se, dizem, em algum lugar, graças ao negro-humor de mentes pervertidas, um tipo de Jogo do Bicho: ganha quem acertar o próximo animal a morrer. O caso não é de fazer graça ou piada. O Ministério Público, a polícia e o Ibama investigam. Ontem, precisamente às 5:40 da manhã, foi encontrada a mais recente vítima da evacuação de animais para o mundo astral: um bisão europeu deixou o viveiro subindo para a Arca que o levará ao paraíso. E por que não pensar em animais dividindo conosco as benesses celestes? Afinal, Deus não se esforçou para livrá-los do dilúvio? Não estavam também lá, no mesmo paraíso, antes da formatação de Adão? Então não existe heresia nas palavras do cronista. Os animais têm direito a uma forma de continuidade, seja a de uma alma, uma energia, uma substância intangível, ou qualquer outra forma de denominação que as nossas crenças ou descrenças encontrarem. Os primeiros a partir foram os hipopótamos. Seus banhos atraíam multidões que ficavam horas contemplando aqueles movimentos lentos, deslocando massas de água e abrindo suas enormes bocarras para o delírio geral. A perda de um casal recente de girafas causou comoção. Chegaram depois de uma operação de transporte que exigiu que fios elétricos fossem removidos, sinaleiros desmontados, galhos podados, em uma manifestação de solidariedade que ocupou a mídia local e contou com o apoio integral da população. Afinal, os espécimes eram vítimas de maus-tratos no circo que as explorava. Fugiram das câmaras de tortura, com suas bandeiras flamejantes, com seus hinos de alegria, no disfarce perfeito perante a crueldade, para a morte no espaço construído para abrigá-las. Por vários meses a sua elegância desfilou, e encantou aqueles que as visitaram. Esbeltas, imponentes, leves e majestosas, pareciam nem estar ali. Eram visões de outro mundo que inebriavam famílias inteiras. Sua graça não nos pertence mais. Podemos contar ainda uma onça, um leão, um enorme jacaré, além dezenas de outros de menor porte. A cada morte a cidade sentia a perda de uma alegria. Para maior amargura, a bem das investigações, o Zôo foi interditado. Enquanto as autoridades investigam, aquela mancha verde fica abandonada no seio da cidade, cercada por muralhas de pedra e pelas buzinas dos automóveis - verdadeiras trombetas do pré-apocalipse. Os domingos perderam uma sagrada opção familiar de lazer. Ficamos de fora, com nossos filhos, olhando através das telas de arame, e seus bambus, torcendo, rezando, implorando para que não morram os veículos de tantos sorrisos. Se fomos maus, se nossa cidade não os merece, se as acomodações podem (e devem) ser melhoradas, vamos à luta. Diz-se, na Lenda de Peter Pan, que quando uma criança diz que não acredita em fadas, uma delas morre. Os animais não são fadas, mas nos encantam como se fossem. Se pudéssemos salvá-los batendo palmas, nós o faríamos, mas não podemos. E quem pode inverter o curso de tais acontecimentos? As autoridades tentam, mas não encontram ligação entre as mortes. Enquanto isso, as fadas morrem... |